terça-feira, 17 de abril de 2012

Grandes Discos que muita gente diz ter ouvido, mas bem poucos se lembram ou na verdade, não o ouviram mesmo, parte IV

Roxy Music, "Roxy Music" (1972)


Um dos grandes nomes do glam rock, o Roxy Music era musicalmente o mais ousado de todos, isso sem nunca perder a identidade pop, pois se uma coisa que o Roxy Music é, é ser pop, desde a personalidade de seu mentor, Bryan Ferry até seus shows loucaços e cheios de glamour (como bem pedia o movimento). Mas, quem pensa em um pop industrial, se engana: a música deles é bastante criativa e cheia de nuances, inclusive sendo uma das primeiras bandas pop a usar massivamente os sintetizadores, graças ao seu gênio eletrônico, Brian Eno, que seria nos anos 80 e 90 um dos maiores produtores do mercado musical. O álbum começa a 100 km/h com "Re-make/Re-Model", que após um início tímido, sai em disparada em busca de uma garota, cuja referência mnemônica é uma placa de carro, cantada na música (CPL593H), mostrando realmente que a liberação sexual era uma realidade e que os encontros fortuitos e passageiros vieram para ficar.A base remete diretamente ao krautrock (movimento musical alemão, que mesclava rock, eletrônica e minimalismo). Em seguida, a ode eletrônica "Ladytron" (inclusive é o nome de uma banda eletrônica dos anos 2000), que inicia-se com uma misteriosa aura ao som de sintetizadores e de um oboé, para então seus versos cadenciados 'grudarem' imediatamente. A música finaliza com camadas de sons eletrônicos aliados a uma percussão ferroviária. Na terceira faixa, a banda volta-se para um pop mais 'sadio': "If there is something" onde o narrador explicita que fará qualquer coisa pela amada, "eu faria qualquer coisa por você/ eu escalaria montanhas/ eu nadaria por toda a imensidão azul dos oceanos/ eu andaria milhares de milhas" e Ferry exagera na impostação como pedia o figurino do glam rock. O curioso é que esta faixa termina com uma melodia que é muito parecida com o final da música "Under the Sun", do Black Sabbath, também de 1972. Plágio? Coincidência? O rock volta com tudo em "Virginia Plan", carregada de peso, mas com concessões e a letra é sobre alguém que está curtindo com avidez sua juventude. Então, a calma de "2.H.B" e suas nuances eletrônicas. Aqui os sintetizadores conduzem toda a música (apesar do peso do baixo) e o final é belíssimo e relaxante. Surge então a esquisitice de "The Bob (Medley)", e seu início não deve nada a passagens do psy-trance, surgido décadas depois (mostrando que Eno é realmente 'o cara' do pop moderno). A letra é cantada meio que em desespero, mas não um desespero melodramático, mas perturbado. No meio, um saxofone sola ao fundo enquanto sons de batalha pronunciam-se (muito sem dúvida, as perturbações psicológicas do próprio narrador). Então o coro anuncia "Muitos momentos belos/ Muitos momentos tristes/ Muitos momentos maravilhosos/ Mal demais" e que conduz ao um crescendo de insanidade. Tudo cessa, um piano e um oboé conduzem a música e o narrador sussura, "Mas quando a festa se acabou/ e tudo estava quieto e calmo/ nós caminhamos juntos a luz do luar/ e olhamos para a calma do lago" , para a loucura retirar o narrador do seu sonho e encerrar a música em volume altíssimo. A sexta faixa "Chance Meeting", com voz e piano na primeira estrofe e um reencontro amargurado entre dois amantes. As coisas vão ficando mais dramáticas e sons agudos ao fundo demonstram todo o ressentimento do momento. Uma aura mais leve reaparece na ultra-pop "Would You Believe", que lembra muito as canções de amor pop dos anos 50. A penúltima faixa, "Sea Breezes" que canta amargurada "é uma vergonha pensar no ontem como uma vergonha" e se desculpa dizendo "Mas há até anjos que cometem os mesmos erros no amor", cantado de uma forma tristonha, e com grande economia no arranjo. Então, o tom amargurado do canto de Ferry volta na estrofe final, quase raivoso "Agora que estamos sozinhos/ as coisas parecem mais difíceis" . E o álbum finaliza com uma homenagem do grupo ao doo woop  dos anos 50, grande  fonte de inspiração para o Roxy Music. "Bitters End" é romance dramático, bem ao estilo do clássico "Carol" e afins e canta choroso, "mas agora que você encontrou outro, haverá alguém que me encontrará?".


O Glam Rock foi um movimento homogêneo nas atitudes, mas bastante heterogêneo musicalmente. Junto com David Bowie, creio eu que o Roxy Music foi o que mais influenciou o pop das décadas seguintes, graças principalmente a Brian Eno, que colocou definitivamente os sons eletrônicos dentro da música jovem ocidental.




Link para download:
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terça-feira, 10 de abril de 2012

Grandes Discos que somente meia-dúzia ouviram, Parte VII

David Ackles-"American Gothic" (1972)


Este disco, lançado em 1972, completamente perdido no meio do glam rock, dos colossos do rock progressivo e do hard rock é um grande achado. O título remete diretamente a um dos maiores quadros da pintura norte-americana (reproduzido aqui neste artigo) e que reproduz justamente o que o quadro quer passar: o sentimento de ser do norte-americano, uma leitura do sentimento dos EUA. E o melhor, usando de uma sonoridade de muita classe, com arranjos que são conjuntamente elaborados e sutis, e a voz de Ackles (que até lembra Scott Walker, mas sem a dramaticidade deste) permeia tudo com uma gentileza ímpar. O álbum inicia com a música título, "American Gothic"  e uma descendente escala no piano acompanhada de seríssimos sopros, contando a estória de pessoas infelizes, concluindo com "Mas ela é feliz? Oh, não, não, não", em um belíssimo arranjo de piano, cordas e sopros. Segue-se a belíssima "Love´s Enough", com o piano permeando toda a canção, acompanhada aqui e acolá por violão e um clarinete econômico que só ajuda na sutileza e canta, "o amor é suficiente para você achar e perder seu coração", e quase no fim da canção, o som de um órgão escuta-se ao fundo dando a tranquilidade que o amor requer. A terceira faixa "Ballad of the Ship of State", que começa calmamente, mas no bridge explode em sonoridade, e grita "Porque você está atrasado 10 anos! 10 anos!" E o capitão do navio fala a sua tripulação, que questiona "Este navio está indo para casa?", um sentimento que reflete dias de insegurança. Toda esta agitação é substituída pela calma da faixa seguinte, "One Night Stand", uma conversa coloquial entre um casal de amantes, "desejo que não tenha sido um encontro de uma noite só", um prenúncio de uma paixão vindoura e desejada, mas tudo é esclarecido quando um dos amantes pergunta "Ei, qual é o seu nome?", deixando claro que seria mesmo um encontro de uma noite só. "Oh, California", de clima vaudeville, remetendo a Scott Joplin e outras lembranças musicais norte-americanas. Mas o clima de alegria desaparece com a faixa seguinte, "Another Friday Night", que lembra bastante as canções de Elton John, talvez por influência do produtor deste disco, Bernie Taupin, companheiro musical inseparável (na época) do referido cantor. Não sei se por ironia, ou por homenagem mesmo (acho que este segundo), a faixa que vem a seguir, "Family Band", beira ao gospel cantando a união da família e a amizade de Jesus Cristo (com um coro digno de uma igreja protestante). Então tudo muda, de novo, a sombria "Midnight Carrousel", com seus acordes de piano gravíssimos, e uma orquestração carregada de mistério, parecendo uma narração de um poema de Edgar Allan Poe, em uma canção realmente atemporal. Um clima de despedida aparece em "Waiting for the Moving Van",  com o narrador descrevendo a sua velha casa (e por extensão sua vida passada) que está sendo deixada para trás. A orquestração carrega de tristeza, mas quando o narrador se lembra dos momentos felizes, a orquestração carrega-se de sol. A décima faixa, "Blues for Billy Whitecloud", usando do jazz dos anos 30, como um musical, e a narração torna-se mesmo isso, a descrição de um personagem. O álbum encerra-se com a épica "Montana Song", a narração de um filho pródigo, que declara "achei aquilo que vim procurar", , carregada de música erudita contemporânea, especialmente o compositor norte-americano Aaron Copland.


Ouvi este álbum várias e várias vezes, sempre descobrindo novas nuances, uma obra que mesmo na sua época foi praticamente ignorada.


Link para download: http://www.4shared.com/rar/DfMyuHFb/David_Ackles-American_Gothic.html?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Haicais Errados, Parte II

trilha sonora: David Ackles, "Midnight Carousel"

Velhice:
Solidão.
"Já Sabia"

Calou-se agora.
Pensou.
Queria falar.

Beijos inesperados,
nuvens esparsas,
asfalto crú.

Correra.
Não alcançou.
Nunca alcançou.

Queria a fuga,
esperava-a como presente,
mas era sempre futura. 

Talvez se jogasse
no último segundo.
Se jogou. 

Não era mistério,
que o homem:
havia morrido

quarta-feira, 28 de março de 2012

Grandes Discos que muita gente diz ter ouvido, mas bem poucos se lembram ou na verdade, não o ouviram mesmo, parte III

Lou Reed - "Transformer"




A época era o início dos anos 70 e a moda entre a garotada londrina era ser andrógino e se declarar bissexual (claro, moda entre os que podiam se dizer que acompanhavam a 'nova tendência´). Na verdade, poucos eram realmente bissexuais, na verdade era algo mais para chocar as velhas gerações, na igualmente velha atitude juvenil de confrontação. Pois bem, essa foi a época glam, que traduziu-se na música no assim chamado glam rock , que teve em David Bowie, T.Rex, Roxy Music, Slade, Lou Reed e New York Dolls entre os maiores nomes do gênero. Lou Reed, vindo do grupo que inventou o garage art rock, Velvet Underground, 'virou' glam devido a ajudinha da então rainha do glam, o cantor inglês David Bowie. Depois da saída do Velvet, Reed estreou em sua carreira solo com um disco sem muita identidade, parecendo que havia utilizado sobras de seu antigo grupo. Bowie então, conhecedor do talento de Reed, o convida a ir para Londres e produz para ele (juntamente com o guitarrista de Bowie, Mick Ronson) o discaço "Transformer", um dos grandes títulos do glam rock, na verdade eu acho o menos afetado do movimento, tanto nas letras como na postura. O disco começa com "Vicious", que até lembra o Velvet. A seguinte, "Andy´s Chest" também começa a la Velvet, mas repentinamente os backing vocals colocam devidamente o disco no universo glam. A terceira "Perfect Day", é decididamente proibida se o ouvinte estiver na fossa: começa com apenas piano e bateria, então as cordas entram e Reed canta, "Oh, que dia perfeito/ estou contente por passá-lo com você/ e graças a você vou suportando a tudo", cantado com uma ponta de desespero. A quarta, "Hangin' Round", um eficiente glam rock e seu refrão grudento fundado sobre um piano que vai sendo martelado (remetendo quem sabe a Jerry Lee Lewis?), seguida da belíssima "Walk on the Wild 
Side", um verdadeiro convite a rebeldia e seu verso chave "Ei, querido, dê uma volta no lado selvagem". Depois, uma das minhas prediletas "Make Up" que usa uma tuba fazendo a linha de baixo, que dá um tom de sisudez à música, mas a letra fala sobre alguém que se maquia muito (não dá para precisar se é um homem ou uma mulher, vai de acordo com o gosto do cliente) e Reed a chama de "garotinha esperta". A sétima música também é uma preciosidade, "Satellite of Love", que na estrutura musical lembra bastante as músicas do Bowie na época, e que entre onomatopéias "Bum-Bum-Bum" fala que "satélite sobem para o céu/ essas coisas me fazem pirar/ eu vi um pouco disso na TV/ eu gosto de olhar coisas na TV", um papo obviamente chapadaço. A minha predileta vem então "Wagon Wheel", um riff delicioso, que começa acústico e em crescendo vai tomando conta calmamente da música. O início "você não vai ser meu suporte/ você não me disse, como você se sente?" e após isto, um simples e assaltante vocal feminino canta "falei, falei" e Reed começa a dissertar sobre a relação. "New York Telephone Conversation", construída sobre os acordes tocados com desleixo no piano, como se estivesse sendo cantado após um jantar de domingo em uma reunião familiar, seguida de "I'm so Free", quase um manifesto do glam "Sim, eu sou um filho da mãe natureza/ E sou o único/ faço aquilo o que quero e o que eu quero é o que vejo/ Coisas que só poderiam acontecer comigo". O álbum termina realmente se despedindo, com "Goodnight Ladies", com a banda tocando como se estivesse fechando o bar e só alguns bêbados restassem no salão.


Para quem quer conhecer o melhor do glam rock, este álbum é essencial. (e mesmo para quem não quer conhecer o glam rock, mas apenas para apreciar uma boa música pop)


Link para download: https://rapidshare.com/#!download|218p7|53648730|Transformer.zip|65943|R~DF073EBCE61DB3DD9B881BC5E5E5A94C|0|0

terça-feira, 20 de março de 2012

Crônicas que ninguém quer ler, Parte III


O rapaz bonito e seu carro importado

Sentei no banco a beira-mar, para contemplar ninguém. Me senti confortável nessa posição de espectador neutro. Se há uma coisa boa na vida é ser neutro. As mulheres da Avenida beira-mar são lindas, são criaturas modeladas de acordo com o padrão que o mercado criou: óculos de sol da moda, roupas da moda, bucetas da moda. Elas fazem o seu trottoir, exalando seus perfumes de fêmeas disfarçados em qualquer odor que custam mais da metade do meu salário. Elas farejam os homens , que igualmente sucumbiram ao padrão que o mercado criou: fortes, bronzeados, e se não forem isso, ao menos que tenham um bom carro. Eu não tenho carro, eu ando a pé e de ônibus e por isso as mulheres me evitam, já que além de não ter carro eu também não sou forte, nem bonito. Sou inteligente, mas a inteligência na Escala Richter do sex-appeal é um pouco acima do zero. Mas fazer o quê. Eu poderia ter nascido além de pobre e feio , burro, e olha que existem milhões nessa situação , por isso não posso reclamar.
Confortável nessa situação adquirida de pobre e feio, porém inteligente, continuei ali sentado. Nisso, na vaga do estacionamento a minha frente , um carrão é colocado. Eu jamais terei um carro assim. O mais provável é que eu jamais venha a ter carro algum, mas dá para sonhar com os 1.0, que esse qualquer mané igual a mim consegue comprar hoje em dia, mas esse carro importado eu sei que jamais terei, não acredito em milagres e se eles acontecem são só com pessoas que eu nem sei se existem, ergo milagres não existem.
O carro importado é estacionado. Dá para imaginar quantas pessoas no mundo poderiam ser alimentadas com o valor do carro, mas também não adianta pensar nelas, que ninguém vai deixar de andar no seu carrão para alimentar alguns miseráveis perdidos em algum lugar sujo nesse mundo que dizem ser de um deus. Não só bastasse ser um carrão e sai dele um rapaz de seus vinte e poucos anos, com uma beleza padrão passarela. Claro, me senti um lixo. Eu que achava que não ligava mais para isso, me senti um lixo, não posso negar a minha natureza de macho, me senti diminuído ali por aquele espécime que 100 entre 100 mulheres no mundo prefeririam a ser fecundadas por ele e não por mim.
Então para aumentar o meu complexo de inferioridade de feio e pobre, o rapaz resolve ficar encostado ao seu carro. De frente a mim. È mais do que óbvio que ele não quer competir comigo, para competir comigo basta uma moto de 125 cilindradas. Ele parou ali e vai se exibir as fêmeas. Resolvi sair, mas resolvi ficar. O fundo do poço ainda está muito longe.
E passam as mulheres e olham para o rapaz bonito do carrão importado. E quando em dupla, ou em grupos, passam e comentam em sorrisinhos umas as outras. Comecei a me sentir confortável, pois era totalmente ignorado: tive a sensação de ser um homem invisível.
E passam mulheres , e passam mulheres acompanhadas com seus maridos barrigudos que se sentem rapidamente ameaçados pelo rapaz bonito, mas eles olham para suas mulheres já sem o viço das grandes belezas que desfilam pela praia e sabem que o rapaz bonito do carrão importado não vai querer nada com elas, e passam as mulheres remexendo os cabelos para exalar algum feronômio a ser sentido, e o rapaz ali, quieto, somente para  ter o prazer de ser admirado. Meu cérebro investigativo da natureza humana não resiste, vou até e ele e lhe pergunto qual é a sensação de ser tão cobiçado pelas mulheres, sensação essa que eu jamais terei. Não é que o rapaz começa um diálogo citando Nietzsche, Wittgenstein, Schoppenhauer e outros nomes alemães polissílabos? O cara ainda por cima era inteligente pra caramba. Era demais pra mim. Antes de me despedir falei: Cara, Deus deve te amar de paixão, né?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Grandes discos que somente meia-dúzia ouviram, Parte VI

John Prine- "John Prine" (1971)


Eu não gosto de música country. Sempre me parece a mesma melodia e a mesma letra, com alguma variação aqui e acolá. Então quando fui baixar esse álbum de 1971, de um cantor/compositor que desconhecia por completo, já fiquei esperando algo que escutaria uma única vez e 'até logo e até nunca mais'. Surpresa para mim: John Prine mesmo sendo um cantor country, é bem além do gênero, mas sem fugir por completo da raiz deste. As letras são narrações sobre o cotidiano e sobre o mundo, frequentemente com um viés de protesto e melodicamente é muito interessante. Suave, mas incisivo. Em "Ilegal Smile", como o próprio título evoca, o narrador canta no refrão "Mas felizmente eu tenho a chave para fugir da realidade";  a tristeza de se envelhecer, corajosamente em "Hello in There", " Todos sabemos que velhas árvores vão ficando cada vez mais fortes/ e velhos rios vão ficando cada vez mais selvagens/ as pessoas idosas apenas crescem solitariamente/ esperando que alguém as diga "E aí, como vai?"", algo nada comum na tradicional música country. Um conformismo retirado do Eclesiastes (meu livro predileto da Bíblia, por sinal) em "Pretty Good": "Está tudo muito bem, mas na verdade, está como sempre esteve". Uma repulsão a juventude hippie da época em "Quiet Man", "Você tem novidades para mim/ Eu não tenho nada para você/ Não venha descarregar sua tristeza em mim/  Vá em frente e faça seja lá o que quiser fazer".  O drama dos veteranos de guerra (na época o Vietnã estava no auge), em "Sam Stone", que canta "Mas a morfina alivia a dor". Há também protesto anti-envolvimento dos EUA nas guerras mundo afora, "Your flag decal 
won´t get you into heaven anymore", um belíssimo tapa na cara do americano médio patriota "Seu adesivo da bandeira não o levará mais ao céu/ ele já está lotado por causa da sua guerrinha suja/ Agora Jesus não gosta mais de matanças (Excelente Ironia!), não importa qual que causa seja/ Então seu adesivo da bandeira/ não o levará mais para o céu". Minha predileta é "Flashback Blues", e este verso genial "fotografias sorridentes/ retiradas entre os tempos ruins".  Não bastasse todas estas preciosidades líricas, a música também é excelente. 


Recomendo, sem dúvida alguma.




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quarta-feira, 7 de março de 2012

Grandes Discos que somente meia-dúzia ouviram, Parte V

Fela Kuti- Live! with Ginger Baker


Fela Kuti é um músico nigeriano que misturou como ninguém os sons da África Ocidental com o ritmo de James Brown, ou seja, ele fez o ritmo africano natal encontrar seu filho mais famoso, o afro-americano. Neste álbum ele traz a pareceria de Ginger Baker, baterista do super-trio Cream (uma das bandas da vida de Eric Clapton), em uma gravação ao vivo (e por isso com algumas deficiências na 'mixagem'). As duas primeiras faixas, "Let´s Start" e "Black Man's Cry" possuem uma das coisas mais fascinantes que já escutei na música pop: um seção rítmica que é milimetricamente repetida (a linha do baixo ficou grudada na minha cabeça durante semanas). Se você prestar bastante atenção, vai perceber que todas as batidas (que não são poucas), inclusive as de semi-colcheia e além, são repetidas com uma exatidão assombrosa, algo que só apareceria na música eletrônica (e com a ajuda do computador). Impossível resistir a esta seção, você pode ser o sujeito mais absorto do mundo, mas assim que o baixo/bateria/percussão começam a trabalhar, no mínimo seus pés acompanharão o compasso hipnótico. E sobre essa seção, improvisos jazzísticos e vocais primais, uma economia que só valoriza o conjunto. As duas outras faixas, "Ye Ye De Smell" e "Egbe Mi O", primam mais pelo arranjo e solo, mas sem perder a sonoridade de Fela Kuti  (nelas o bateirista Baker dá um show, como de costume).

Um disco imperdível para quem quer conhecer algo novo e de qualidade primorosa.

Link para download: http://www.4shared.com/rar/QuCcsjUc/fela_kuti_-_1972_-_live_with_g.html?