terça-feira, 2 de julho de 2013

Leituras para Curar a Insônia, Parte III

Silêncio e Som- O agudo e o grave, o longo e o curto   

O maior tambor do mundo, com 2.4m de diâmetro, costumava estar debaixo de um teto de vidro no
pátio da fábrica inglesa de instrumentos musicais Boosey & Hawkes, perto de Londres. Quando foi tocado, o enorme tambor fez pouco barulho, mas a roupa dos presentes ondulou como se houvesse uma brisa no local.
O couro do tambor vibrou e propagou ondas pelo ar, mas o comprimento da maioria das ondas foi tão grande, e portanto a altura do som produzido tão baixa, que o ouvido humano não as registrou.
O ouvido capta um som tal como um tambor o produz- as ondas sonoras fazem vibrar a membrana retesada do tímpano. Se as ondas chegarem muito devagar, com um ritmo inferior a 20 por segundo, o tímpano humano não reage. Se a altura do som sobe, as ondas tornam-se mais rápidas, e o ouvido passa a ser sensível a elas. Se a altura ultrapassar o ponto em que o ar vibra mais de 20.000 vezes por segundo, as ondas tornam-se rápidas demais para que os ouvidos as captem, e também nada conseguimos ouvir.
O som necessita de um meio material para transmitir suas vibrações. Ao contrário da luz, não atravessa o vácuo porque nada existe neste que as transporte. Assim, seria inútil gritar por socorro no espaço. No entanto, o ar não é um meio eficaz para transmitir o som, Este viaja a cerca de 1200 km/h através do ar, quatro vezes mais depressa através do mar, dez vezes mais rápido através da madeira e do ferro fundido e 16 vezes mais depressa através do vidro. Algumas ligas metálicas muito duras, como o carboloy, transmitem o som a velocidades da ordem de 43000 km/h.
O som de ondas longas, baixo ou grave, viaja mais longe porque os obstáculos pequenos não afetam a estrutura básica da onda, tal como o mar passa tranquilamente sobre pequenos rochedos. Assim, as sirenes dos navios têm um tom baixo para avisarem o mais longe possível. No entanto, um som grave é absorvido quando encontra uma superfície, enquanto as vibrações mais rápidas são repelidas. Os detectores sonares são um exemplo desse fenômeno.Localizam objetos ao emitirem um som agudo semelhante a um silvo.

(extraído de "Você Sabia?", da Reader´s Digest, 1ªedição, 1999, pag.37)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Excertos Literários praticamente desconhecidos, Parte I

Guia breve, porém útil, à desobediência civil


Para se fazer uma revolução precisa-se de duas coisas: primeiro, alguém ou alguma coisa contra a qual se revoltar; segundo, alguém para efetivamente fazer a revolução. O traje é informal e ambas as facções devem ser flexíveis a respeito do local e hora do evento. Mas se nenhuma das partes comparecer, o fiasco será completo. Na Revolução Chinesa de 1650 nenhum dos partidos apresentou-se para a luta, com o que se perdeu um grande estoque de munição.
As pessoas que se revoltam contra os opressores são facilmente reconhecíveis, por serem as únicas que parecem estar se divertindo. Os opressores geralmente são obrigados a andar de terno e gravata, possuem terras e tocam suas vitrolas até tarde da noite sem que ninguém possa reclamar. Sua função é manter o status quo, uma situação pela qual tudo fica exatamente como está, embora costume levar uma mão de tinta de dois em dois anos.

Quando os opressores tornam-se muito rígidos, passamos a ter o que se conhece como Estado Policial- em que se proíbe discordar, dar risadinhas, usar gravata-borboleta e referir-se ao senhor prefeito como Bolão. As liberdades civis são extremamente limitadas no Estado Policial, entre elas a liberdade de expressão, embora a arte da mímica continue permitida.Nenhum crítica ao governo é tolerada, principalmente a respeito do estilo de dançar da primeira-dama.A liberdade de imprensa também é coibida, sendo o noticiário controlado pela censura, que libera apenas as ideias políticas aceitáveis e certos resultados de futebol, desde que não causem comoção entre os torcedores. Os grupos que se revoltam são chamados de oprimidos e estão sempre se queixando de que trabalham muito ou que vivem com enxaqueca.

Um exemplo de revolução foi a Revolução Russa, que arrastou-se durante anos,e só explodiu quando os bolcheviques finalmente descobriram que o tzar e o czar eram a mesma pessoa.
Deve-se observar que quando uma revolução termina, muitas vezes os oprimidos passam a se comportar como opressores, sendo dificílimo para os seus novos súditos conseguir falar com eles ao telefone, filar-lhes um cigarro ou tomar-lhes dinheiro emprestado.

(Woody Allen in Sem Plumas,Ed.Círculo do Livro; trad.Ruy Castro; pp125-6)

domingo, 31 de março de 2013

Grandes discos que somente meia-dúzia ouviram, Parte XI

The Slits-"Cut"


A onda punk na segunda metade dos anos 70,veio como uma avalanche de rebeldia e assim como um avalanche logo passou (claro, bandas punks existem aos montes até hoje, mas o pico do movimento foi naqueles anos), mas deixou seu legado na música pop ocidental, derivando de si estilos como o new wave, o art-punk e o hardcore. The Slits é uma banda feminina única: a vocalista é uma adolescente alemã, que cantando com um sotaque fortíssimo foi a inspiração clara no modo de cantar da cantora Björk e a bateirista Palmolive é um primor no quesito criatividade. As canções podem ser rotuladas de art-punk, pois vão além dos três acordes, principalmente pelo modo de condução e o tempo.Começando com "Instant Hit", maravilhoso arranjo com contrapontos vocais quase atonais e detalhes de flauta doce, falando sobre o amor à um rapaz que acaba se encontrando com outra figura feminina, a heroína ("he is set on self-destruct"), com "Though" temos uma espécie de homenagem aos dois integrantes mais famosos do Sex Pistols, com tambores primais e riffs minimalista; a interessante crítica ao capitalismo em "Spend, spend,spend"; "Newton", um marido como todos os outros que passa seus dias 'Sniffing televisena or taking footbalina" em bom inglês cockney. Segue "Ping Pong Affair", muito criativo musicalmente, uma espécie de funk com o compasso errado, e que narra sobre um relacionamento cheio de idas e vindas, passado brilhantemente à melodia.O manifesto feminino (mas não feminista) de "Typical Girls", e a maravilhosa versão de "I heard through the Grapevine".

A capa do álbum mostra as integrantes da banda, semi-nuas (e sempre lembrando que uma delas tinha 17 anos), cobertas de lama e vestida como primitivas. The Slits é um disco único.

Link para download: http://depositfiles.org/files/rf80063gs


quinta-feira, 14 de março de 2013

Obras incrustadas em Pedra, Parte IV

Johannes Vermeer (1632-1675); "A Leiteira" (cerca de 1658)

Num austero interior do século XVII, uma jovem robusta executa com atenção a tarefa de despejar o leite de uma jarra em uma vasilha sobre a mesa.Sua concentração contribui para a quietude da cena, em que o único ruído sugerido provém do leite escorrendo sobre a vasilha.Nesse ambiente profundamente íntimo, o tempo parece imóvel.Johannes Vermeer proporciona drama e significado a um despretensioso momento doméstico.Mestre da observação do cotidiano, ele era meticuloso no detalhe, como evidenciado pelo prego na parede e pelas manchas na caiação.Seu tratamento de luz e da somba revela grande perícia;  luz que cai sobre a leiteira destaca seus antebraços pálidos e dirige o olhar do observador para o leite que escorre.O amarelo e o azul do corpete e do avental da leiteira brilham na luz e se repetem na toalha e nos demais objetos colocados sobre a mesa. Embora A leiteira não seja um retrato, o observador não tem dúvida de que o quadro foi pintado a partir da observação direta e de que as feições cuidadosamente retratadas da moça pertenceram a uma pessoa real (Tanneke Everpoel, empregada da família Vermeer pode ter posado para o quadro). O realismo da cena não deve, porém, ofuscar o talento do artista, cuja composição foi cuidadosamente planejada para dar autenticidade ao quadro.


(extraído do livro "Tudo Sobre Arte", de Stephen Farthing, p.228, Ed.Sextante,2010) 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os Livros mais Chatos de Todos os Tempos, Parte II

"Cozinha Hippie" (de Hórus Shiva Lamech)

Não bastasse ser literalmente recheado de intragáveis comidas vegetarianas (um dos destaques é o "Broto de Bambu com Molho de Tangerina"), ainda por cima ele dá uma justificativa espiritual para cada uma delas e como consumi-las de acordo com as normas do Grande Espírito Universal. De acordo com esse pavoroso livro, para se comer um reles "Alface in natura" é necessário cantar por meia-hora seguida o mantra "OM namo naaraayaNaaya.
OM namo bhagavate vaasudevaaya", ou seja, quando você acaba de cantar o alface já floresceu.  






"Rumos Incertos" (de Roberto D'Ada Dada)

Poesia Concreta, salvo raros exemplos, é um saco. O pior é quando um poeta completamente desprovido de talento para qualquer tipo de poesia resolve se aventurar no concretismo.O Sr.Roberto D'Ada Dada mora em uma pequena cidade e se acha o cara mais culto e inteligente do município e o pior, todos os habitantes acreditam nisso. Por esta razão, o Sr.Roberto foi eleito por inúmeras vezes o presidente da Academia de Letras local, que por sinal, só tem ele e Dona Etelvina como membros (Dona Etelvina escreveu um livro sobre o cultivo de batatas). A poesia concreta do Sr.Roberto é péssima, com barbaridades literárias do nível de :

"Plic-caiu uma gota,
Ploc-caiu outra,
Zum-eu acordei
Zap-sonhei com minha mãe"

Por essas e todas as outras 72 poesias, o Sr.Roberto leva o meu deslouvor.



"Discutindo Futebol" (de Nelson Ibraihn Uthil)

Nada mais chato do que pessoas que querem fazer do futebol uma cátedra universitária. Ok, o futebol é um esporte vibrante, mas passado os 90 minutos (e seus acréscimos), um sujeito ficar explanando por horas e horas sobre os erros e acertos dos times, é muita falta do que se fazer. Nesse clássico da chatice, o Sr.Nelson (bacharel em Ciências Sociais), divaga sobre as finais de dezenas de campeonatos, entre eles, a Terceira Divisão de Malta, incluindo em seus comentários táticas, filosofia kantiana e antropologia. Os comentários do Sr.Nelson são tão entediantes que depois de ler sua resenha sobre a espetacular final da Copa do Mundo de 1982, você muda de opinião e declara que qualquer jogo da Segunda Divisão Equatoriana é melhor (desde que, é claro, algum dos jogos da 'Segundona' do Equador não tenha sido resenhado pelo mesmo).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Obras incrustadas em Pedra, Parte III

Renascimento Veneziano- Baco e Ariadne, por Ticiano  (Tiziano Vecellio 1485-1576)

Baco e Ariadne (1520-1523)

Inspirada na estória dos dois amantes escrita por Ovídio e Catulo, esta obra-prima, uma das primeiras de Ticiano, faz parte de uma série de pinturas criadas para Alfonso D'Este, duque de Ferrara.Ticiano foi o mais importante pintor da renascença Veneziana; depois da morte de seu mestre Giovanni Bellini, em 1516,ele dominou a arte veneziana durante os 60 anos seguintes e se tornou o artista mais famoso da Europa. Alfonso d'Este encomendou Baco e Ariadne para seu palácio em Ferrara, no norte da Itália.Esta obra mostra o momento em que Baco, o deus do vinho, encontra Ariadne, filha do rei de Creta. Depois de ajudar seu namorado Teseu a escapar do labirinto do Minotauro, Ariadne foi abandonada na Ilha de Naxos.É quando entra Baco, numa carruagem puxada por dois guepardos, com sua multicolorida multidão de seguidores bêbados. Baco é mostrado num semissalto enquanto seus olhos se fixam em sua futura noiva. Inicialmente assustada com o aparecimento de Baco, o rosto de Ariadne exibe uma mistura de medo e interesse quando seus olhares se encontram. Embora seu rosto esteja voltado para Baco, o corpo está afastado dele e o braço está estendido para o navio que parte e para o amante que a abandonara. Numa demonstração de cor, movimento e imaginação, Ticiano dá vida à pintura de um modo sem precedentes.

(extraído do Livro "Tudo Sobre Arte", de Stephen Farthing, Ed.Sextante, 2011.pp 170 e 171)




O quadro foi utilizado na capa do álbum "God Shuffle His Feet" da banda "Crash Test Dummies", álbum este que contém o hit mundial "Mmm Mmm Mmm Mmm", com o rosto dos integrantes da banda no lugar dos personagens originais (com a ausência de Ariadne).





terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Grandes Discos que somente meia-dúzia ouviram, Parte X

The Residents-Duck Stab/Buster and Glen

Primeiramente gostaria de avisar que não é um disco para todos. "Duck Stab" é cheio de nuances derivadas do free jazz, do krautrock, dos experimentos eletrônicos repletos de ruídos, de atonalidades. No entanto, me agradou e muito, pois ele nunca se repete, mesmo que seja bastante econômico no quesito arranjos. As letras mais se preocupam com a sonoridade do que com o significado (principalmente na música "Constantinopla", onde claramente fica caracterizado o uso da palavra simplesmente pelo som que ela proporciona). "Sinister Exaggerator" é praticamente uma trilha sonora de um filme psicótico, onde se percebe a confusão do protagonista com sua própria mente. "Booker Tease" com sua linha de baixo que remete a "Dazed and Confused" do Led Zeppelin, mas fica somente nisso e introduzindo metais atonais no refrão. Continuando a sua verve inspirada em trilhas sonoras, segue com "Blue Rosebud", remetendo a algum filme de suspense que não se leva a sério. "Laughing Song" é isso mesmo, um refrão com risadas praticamente infantis e as estrofes cantadas desleixadamente (e praticamente ilegíveis). Um verdadeiro hino desconhecido da nova música é "Bach is Dead", proclamando a morte do sistema tonal criado por Bach em "O Cravo Bem Temperado" e que regeu a música ocidental nos últimos 400 anos (e na verdade, Bach não morreu e seu sistema tonal ainda é a base de quase toda a música mundial).Outra pérola cantada com desleixo é "Elvis and his Boss"  seguida da incessante linha de baixo "Lizard Lazy"  quebrada por sons sintetizados em crescendo. Temos então "Semolina" , outro refrão que mais é cantado pelo som que proporciona do que pelo significado em si "Selmolina/Loves the Seashells/At the shoresea/Loves the Seashells". Continuando com o non-sense "Birthday Boy", cheio de sons ambiance e usando de uma base hipnótica e letra absurda. A mais coerente nessa 'bagunça' toda é "Weight Lifting Lula", digamos assim, a normal (claro, não se comparada ao pop em geral). Segue-se a fantástica "Hello Skinny" também de inspiração em trilha sonora do cinema (me lembrou muito o estilo do compositor Phillip Glass), bastante lúgubre e finalizando com a base krautrock de "Electrocutioner" que realmente é uma eletrocussão sonora (no bom sentido).

Para aqueles que procuram por algo que seja ao mesmo tempo diferente e palatável, baixe, escute no seu fone de ouvido absorvendo todos os ruídos criados na obra.

Link para Download: http://www.4shared.com/rar/KDKIw_7e/The_Residents-Duck_Stab-_Buste.html?